sábado, 19 de novembro de 2016

Com quantos estudantes se ocupa uma escola? (C. Leonardo B. Antunes)


            Com quantos estudantes se ocupa uma escola?
            Com quantas mãos erguidas se faz uma greve?

            Há quanto tempo números importam mais
            Que as causas pelas quais movemos nossos números?

            Qual número fará teu coração mover-se?

domingo, 13 de novembro de 2016

Mario Benedetti, Te quero (trad.: C. Leonardo B. Antunes)


            Tuas mãos são meu afeto
            os acordes no violão
            eu te quero pois tuas mãos
            lutam pelo que é correto

            se te quero é porque sois
            meu amor meu aliado
            e na rua lado a lado
            somos muito mais que dois

            teus olhos são meu seguro
            contra um tempo obscurantista
            eu te quero por tua vista
            que resplende com futuro

            nessa boca minha e tua
            nenhum erro se decanta
            te quero pois tua garganta
            grita contra a falcatrua

            se te quero é porque sois
            meu amor meu aliado
            e na rua lado a lado
            somos muito mais que dois

            e por teu rosto sincero
            e teu passo vagabundo
            e teu pranto pelo mundo
            porque sois povo te quero

            por amor não ser santinho
            nem ser cândida moral
            e por sermos um casal
            que jamais está sozinho

            te quero em meu paraíso
            é dizer que em meu país
            o povo viva feliz
            mesmo contrário a um juízo

            se te quero é porque sois
            meu amor meu aliado
            e na rua lado a lado
            somos muito mais que dois

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Hallelujah / foratemer


Hallelujah / foratemer (C. Leonardo B. Antunes)


            fora PEC 55
            fora escola sem partido
            fora MP do ensino médio

            fora Serra
            fora Dória
            fora Marchezan e Sartori
            fora o servilismo entreguista

            fora Temer
            fora Temer
            fora Temer
            fora Temer

sábado, 5 de novembro de 2016

No interior da lei (C. Leonardo B. Antunes)


Por dois anos eu passeei pelo colossal pavilhão de regras e medidas da Lei. Como turista curioso, quedei diante de seus muitos monumentos e instalações, perscrutando antigas escrituras e enormes códices de mesuradas considerações. 
Tudo me parecia alheio e frio.
Inquietavam-me as intransigências da Lei, os muitos excessos de suas exceptivas exceções, os descasos com a aplicação real de seus preceitos, o fechamento súbito de suas poucas, elusivas zonas de segurança.

Após dois anos, recebi o visto de permanência como cidadão temporário da Lei. A mim se abriram novas e gigantescas alas de regras e medidas.
Estudei-as a fundo, mas não as compreendi. Porém, as regras anteriores passaram a fazer algum sentido.
Eram necessárias para que eu chegasse ali.

Dez anos se passaram e tornei-me cidadão emérito da Lei. Cheguei a novas, restritíssimas alas de lautos códices dourados, abertos não só para minha consulta, mas também para que eu os editasse a fim de aprimorar o funcionamento da Lei.
Adquiri uma compreensão sentimental de que meu destino estava intrinsecamente ligado ao funcionamento da Lei.
A Lei servia para que eu chegasse ali, ao próprio cerne da Lei, onde minhas mãos a tomaram inteira e a fizeram nova.

Vivi uma vida toda trabalhando a Lei.

Aposentei-me sob aplausos de meus colegas, que me conduziram a uma ala tranquila no interior da Lei.

Num dia qualquer, estando eu já velho e cansado, recebi a notícia de que poderia finalmente sair da Lei, que estava sendo cuidadosamente revista para meu próprio bem.
Achei estranho. Não queria sair da Lei.
Pedi explicações ao ilustríssimo senhor diretor.

Jamais vieram.

No dia em que adoeci terminalmente, descobri que saíra da Lei. Homens sem rosto, impecavelmente bem-vestidos, levaram tudo que eu tinha e conduziram-me para fora da Lei.

Explicaram-me, apologéticos, que havia ocorrido um engano, e que eu jamais pertencera à Lei.
Mas agradeceram todos os anos de trabalho em que, com tanto afinco, eu revisei os tortuosos parágrafos que ajudavam a melhor identificar todos aqueles que pertenciam e os que não pertenciam no interior da Lei.

domingo, 25 de setembro de 2016

O CUBO (C. Leonardo B. Antunes)

I

cada dia de trabalho,
cada hora cuidadosamente dispensada
ao diuturno esforço para cumprir os contratos de trabalho,

aumenta um pouco mais o Cubo

II

saiba-se que o Cubo
é tudo quanto existe
e tudo quanto deve existir

em hipótese alguma
será tolerado um ato violento
contra o Cubo

III

há somente dois tipos de ser humano

primeiro, os cidadãos,
que trabalham na construção e na manutenção do Cubo,
cada um responsável por uma mínima parte de seu imperioso funcionamento
(ainda que nenhum, em hipótese alguma, deva conhecer a função de seu trabalho),
cumprindo contratos para a confecção de parafusos, porcas, engrenagens,
planejando a miríade de cômodos cúbicos que compõem o Cubo,
ora vazios e assépticos,
ora perfilados pelas mais mortais armadilhas que a tecnologia permita,
a fim de eliminar 

o segundo tipo de ser humano, os parasitas,
vândalos anarquistas que questionam o funcionamento do Cubo,
inúteis incapazes de produzir novas peças para o Cubo
a fim assegurar sua imperiosa expansão

IV

o objetivo de todo contrato de trabalho no Cubo
é cumprir o contrato de trabalho recebido para trabalhar no Cubo

com isso se recebem os meios para viver dentro do Cubo
nos mais assépticos de seus cúbicos cômodos

V

quanto mais distante for o produto de um trabalho
de sua real aplicação dentro do Cubo
maior será seu pagamento

todos competem pelos mais complexos trabalhos,
de inescrutável aplicação prática dentro do Cubo,
mas apenas os melhores podem tê-los

apenas os piores,
por trabalharem diretamente próximo dos cômodos armadilhados,
encontram-se na iminência de compreender a função de seu trabalho
e, com isso, o funcionamento do Cubo

VI

por ocasionar profunda depressão, tendências suicidas
e eventual degeneração na ética de trabalho para o progresso do Cubo,
a compreensão do funcionamento do Cubo
é desaconselhada pelo ministério da saúde cúbica

VII

para ir ao trabalho,
todo dia é necessário vaguear pelo labirinto de cômodos do Cubo,
que a cada noite mudam de posição
para melhor surpreender os que se recusam a trabalhar no Cubo

é dever de cada cidadão
evitar as armadilhas do Cubo

é dever de cada cidadão
acreditar que os melhores são aqueles que sobrevivem
ao aleatório passeio pelos corredores armadilhados do Cubo

VIII

há êxtase em ser um dos melhores

IX

a morte dos piores purifica o Cubo de potenciais parasitas

terça-feira, 20 de setembro de 2016

John Keats, Ode a um Rouxinol (trad.: C. Leonardo B. Antunes)


            Meu coração padece e um torpor sonolento
               Me assalta a mente, como se eu me envenenasse,
            Ou se sorvesse um opiáceo há um momento
               Recém-passado, e para o Lete me afundasse.
            Não é por invejar-te tua feliz fortuna,
               Mas, sendo tão feliz em tal felicidade,
                  Que tu, diáfana deidade das florestas,
                     Em mélica tribuna
               De verdes plantas e sombrosa variedade,
                  Cantas sobre o verão com calma manifesta.

            Quem dera um gole de vindima! que tivesse
               Esfriado por eras na terra escavada,
            Com o sabor de Flora e campesinas messes,
               Dança e canto em Provença, e farra ensolarada!
            Quem dera uma caneca com o ardor sulino,
               Cheia do verdadeiro, viçoso Hipocrene,
                  Com belas bolhas me piscando do bocal,
                     E o lábio purpurino,
               Que eu beba e deixe o mundo sem quem me condene
                  E contigo me esvaia no breu florestal.

            Esvair-me à distância, sumir e esquecer
               Aquilo que nas árvores jamais soubeste,
            O esgotamento, a febre e a angústia de viver
               Aqui, onde sofremos sofrimento agreste;
            Onde a paralisia move tristes cãs,
               Onde os jovens desbotam, sem viço e perecem;
                  Onde apenas pensar já traz melancolia
                     E agonias malsãs;
               Onde os olhos lustrosos da Beleza descem
                  Longe do olhar que um novo Amor ofertaria.

            Vamos! Vamos! Que irei voando acompanhar-te,
               Não levado por Baco em sua carruagem,
            Mas nas inescrutáveis asas de minha Arte.
               Inda que os pensamentos me desencorajem,
            Já estou contigo! A noite, amena, se traduz,
               E feliz a Rainha-Lua já se entrona,
                  Cercada por um véu de fadas siderais;
                     Mas aqui não há luz,
               Exceto o que do céu as brisas impulsionam
                  Por verdejante sombra e trilhas espirais.

            Eu não enxergo as flores junto dos meus pés,
               Nem qual incenso leve sobre os galhos voa,
            Mas, indo de veladas trevas através,
               Adivinho a doçura com que o mês coroa
            A grama, o arbusto e as árvores de frutas feras;
               O alvo espinheiro e a madressilva pastoral;
                  Efêmeras violetas, por folhas cobertas,
                     E a que da primavera
               Nasceu primeiro, a rosa mosqueta, vernal,
                  O murmúrio das moscas nas tardes abertas.

            Soturno escuto; e por um tempo prolongado
               Fui quase apaixonado pela calma Morte;
            No meu verso a chamei por nomes delicados,
               Para privar-me o peito do ar que é seu suporte.
            Agora, mais que nunca, alegre eu morreria,
               Cessaria na noite sem nenhuma dor
                  Enquanto tu derramas tua alma afora
                     Com tamanha alegria!
               Ainda assim tu cantarias, e em torpor
                  Teu réquiem embalara minhas últimas horas.

            A morte não te espanta, Pássaro imortal!
               Nenhuma geração faminta te espezinha;
            A voz que agora eu ouço, num tempo ancestral,
               Ouviram um imperador e uma adivinha:
            Talvez a mesma música que achou açude
               No coração de Rute quando, em nostalgia,
                  Quedou em lágrimas num milharal sem dó.
                     A mesma que amiúde
               Fez abrir escotilhas com sua magia
                  Em perigosos mares encantados, só.

            Só! A própria palavra soa como um sino
               Para de junto a ti trazer-me à solidão!
            Adeus! O pensamento não tem bom destino;
               Não duram os enganos da imaginação.
            Adeus! Adeus! Teu canto de lamúria some
               Além dos campos próximos, num calmo rio,
                  Sobre a face dos montes; e agora se enterra
                     Em um vale sem nome:
               Tivera uma visão ou um sonho doentio?
                  Foi-se a canção: começa a vigília ou se encerra?