sábado, 21 de janeiro de 2017

duo (C. Leonardo B. Antunes)


            o sábio asceta crente na bondade
            fundante-organizante-constituinte
            aponta-me o caminho da montanha
            e a lógica de um logos transcendente-
            -imanente porquanto necessário
            à possibilidade de existir

            mas o inculto pagão terribilíssimo
            escava abismos sob os pés do monte
            além do tempo-espaço e desse mundo
            além da eternidade e do infinito
            e avança rindo bêbado na bruma
            amorfa do que exclama ser o caos



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

boulos e a boulé (C. Leonardo B. Antunes)


            como os heróis helênicos tardassem
            a vinda por que há tanto se aguardava
            e no horizonte não se visse algures
            nau nenhuma,

            erguemos engenhosos nosso próprio 
            cavalo de madeira em praça pública
            e enchemo-lo de heróis por Zeus nutridos,
            nobilíssimos,

            e agora dia e noite com seus cetros
            aurilavralados eles nos ensinam
            a dura disciplina necessária
            no servir.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Antologia Palatina, 10.45, Paladas de Alexandria (trad.: C. Leonardo B. Antunes)


            Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo
               Te semeou, cessarás com toda tua arrogância.
            Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza,
               Ao te chamar de imortal, planta provinda do céu.
            Tendo nascido do barro, por que presunção? Desse modo,
               Diz só quem quer se adornar com uma fraude solene.
            Mas, se procuras um dito escorreito: de licencioso
               Coito nasceste e a partir de um corrimento poluto.


Antologia Palatina, 9.441, Paladas de Alexandria (trad.: C. Leonardo B. Antunes)


            Admirei, às três vias, o brônzeo rebento de Zeus,
               Antes em toda oração, ora tombado por terra.
            Bravo, então disse: “Guardião contra males, de tríplices luas,
               Nunca perdeste a ninguém, e hoje tu estás derrubado.”
            Quando foi noite, sorrindo, o divino falou-me ao meu lado:
               “Mesmo divino, aprendi a ser vassalo dos tempos.”  

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

depuração (C. Leonardo B. Antunes)


            às vezes é preciso um tempo mudo
            a fim de depurar o espesso caldo
            dos sentidos, fechar antigos saldos
            antes de abrir-se novamente a tudo.

            às vezes e de novo chega um tempo
            daquilo que não cabe na moldura,
            que se faz e refaz e transfigura
            e encontra em tempo um novo contratempo.

            e às vezes se retorna a uma unidade,
            brevíssimo momento em que o destino
            alinha os astros favoravelmente

            (ou seja lá qual for o desatino
            que explique esse fenômeno indecente,
            tão improvável: a felicidade).

domingo, 8 de janeiro de 2017

tardíloquo (C. Leonardo B. Antunes)


            o primeiro
            poema do ano

            incomposto
            inescrito
            mas expelido

            tirado a fórceps
            de escuro ventre
            como um dia eu mesmo fui

            não há quem queira
            (nem humanos nem bichos nem poemas)
            vir ao mundo

            exceto por coercitiva condução

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Curly Putman, Green, green grass of home / Os campos do meu lar (trad.: C. Leonardo B. Antunes)


A velha vila se mantém 
Eu percebo ao descer do trem
E ao meu encontro
Vêm meu pai e minha mãe

Pela estrada eu olho e lá vem ela,
Doce Mary, como é bela

É bom voltar
Aos campos do meu lar

A velha casa permanece,
Mas carente de pintura,
E ainda há um velho olmeiro
Onde eu brincava

Pela estrada eu ando ao lado dela,
Doce Mary, como é bela

É bom voltar
Aos campos do meu lar

Todos vêm falar comigo, 
Meus parentes, meus amigos

É bom voltar
Aos campos do meu lar

Logo acordo e olho ao lado
Nesta cela em que estou trancado
E logo entendo que era tudo um sonho

Pois há um guarda e um velho padre triste
Passa o dia e quando a aurora chegar

Eu volto
Aos campos do meu lar

Todos vão falar comigo 
Junto ao velho olmeiro quando forem velar-me
Sob os campos do meu lar