terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Hino Homérico 3 (vv. 1-178), a Apolo Délio


Hei de lembrar-me e não hei de esquecer-me de Apolo certeiro.
Dele os divinos na casa de Zeus têm pavor quando passa
E se levantam com pressa conforme lhes chega mais perto
Todos das cátedras quando ele enverga seu arco brilhante.

Leto sozinha mantém-se com Zeus que se agrada com raios:
Logo ela desencordoa seu arco, põe fecho na aljava,
E de seus ombros potentes, tomando nas mãos em seguida,
Ela pendura seu arco num poste da casa paterna
Sobre um suporte dourado. Depois o conduz a sentar-se.
Logo seu pai lhe dá néctar num cálice todo dourado
Ao receber o seu filho. Depois os demais dentre os numes
Sentam-se junto também. Então Leto senhora se alegra
Pois deu à luz um arqueiro potente na forma de filho.
Leto ditosa eu saúdo: geraste uma prole brilhante,
O rei Apolo em consórcio com Ártemis hábil flecheira,
Ela nascida em Ortígia, mas ele na Delos rochosa,
Tu reclinada na grande montanha de Cinto,
Próximo de uma palmeira e das águas que correm no Inopo.

Como te irei hinear, sendo tu tão de todo hineável?
Por toda parte já, Febo, lançaram-te cantos diversos
Na terra firme que nutre bezerros bem como nas ilhas.
Todos te trazem prazer: promontórios altivos, mirantes,
Rios de elevadas montanhas que correm ao mar destinados,
Praias que encostam na beira do mar e refúgios marinhos.

Leto, de fato, primeiro gerou-te, alegria aos mortais,
Ao reclinar-se no monte de Cinto, na ínsula pétrea,
Delos cercada por mar. Dos dois lados, as ondas escuras
Vinham à terra movidas no fino assobio dos ventos
Lá onde tu, ao te ergueres, és rei sobre todos os homens.
Quantos habitam o cerne de Creta e a cidade de Atenas,
A ilha de Egina e a Eubeia famosa por embarcações,
Egas, Piresas, também Peparetos bem próxima ao mar,
Atos na Trácia e ainda os altivos acumes de Pélion,
Samos na Trácia bem como as montanhas sombrias do Ida,
Fócia e Esquiros, também em Autócane o monte elevado,
Imbros de bons edifícios e a ínsula inóspita, Lemnos,
A sacratíssima Lesbos, assento do Eólida Mácar,
Quios também, mais brilhante de todas as ilhas do mar,
Mimas rugosa bem como os altivos acumes de Córico,
Fúlgida Claros e ainda a montanha elevada em Eságea,
A úmida Samos, também altaneiros acumes em Mírale,
Cos, a cidade de humanos dotados de voz, e Mileto,
Cárpatos plena de ventos e Cnidos no topo dos montes,
Naxos e Paros, bem como Reneia de chão pedregoso,
Tantos, premida a parir o Longínquo, foi Leto inquirir
Se uma das terras queria fazer moradia a seu filho.
Elas, contudo, tremeram com medo. Nenhuma arriscava
Dar para Febo acolhida, nem mesmo a mais rica de todas,
Antes de Leto senhora de fato ter ido até Delos
E, perguntando, ter dito as seguintes palavras aladas:

"Delos, prouvera quereres tornar-te um assento a meu filho,
A Febo Apolo, e também construir-lhe um riquíssimo templo!
Pois nenhum outro jamais vai tomar-te; nem tu o ignoras.
Creio que não vais tornar-te bom pasto de bois e de ovelhas,
Nem portarás muitos grãos ou farás germinar muitas plantas.
Se, para Apolo que acerta de longe, fizeres um templo,
Todos os seres humanos irão conduzir hecatombes
Aglomerando-se aqui. Para sempre, fumaça incessante
Vai levantar-se da vila e darás alimento a teu povo
Vindo da mão de estrangeiros, porque não é rico o teu solo."

Disse assim. Delos então se alegrou e falou em resposta:

"Leto, honradíssima filha nascida de Coios ingente,
Eu, de bom grado, a teu filho, o flecheiro que acerta de longe,
Receberia, pois é bem verdade que sou mal falado
Junto dos homens, e muito eu iria me honrar dessa forma.
Inda assim, Leto, eu me abalo ao dizer, mas de ti não escondo:
Sobremaneira, alguns dizem que Apolo será presunçoso,
E que ele irá presidir de maneira grandiosa imortais
E homens mortais sobre os campos aráveis que vida concedem.
Tenho em meu peito e no meu coração um terrível temor
De que, no mesmo momento em que vir ele o brilho do sol,
Faça desfeita da ilha, pois tenho este chão pedregoso,
E com seus pés me revire enviando-me ao fundo do mar,
Onde até o topo por um vagalhão eu serei para sempre
Toda banhada. Outra terra ele irá encontrar, que lhe agrade,
Para erigir o seu templo e seus bosques com árvores várias,
Ao mesmo tempo em que polvos e focas escuras em mim
Vão ter moradas incólumes, pois eu careço de gente.
Mas, se puderes jurar-me, divina, uma jura solene,
De que ele aqui construirá por primeiro um belíssimo templo
Para tornar-se um oráculo aos homens, e somente em seguida
Há de erigir os seus templos e bosques com árvores várias
Aos homens todos, pois há de ter fama por múltiplos nomes."

Disse e então Leto jurou uma jura solene dos deuses:

"Saibam-no Terra e Urano, que vasto se estende por cima,
Bem como as águas do Estige, precípites, mais grandiosa
E mais terrível das juras que existem aos deuses ditosos:
Sim! Para sempre aqui Febo terá certamente um fragrante
Têmeno e altar, e serás, como paga, eminente entre todos."

Logo depois, quando havia jurado e perfeito essa jura,
Delos em muito alegrou-se em nascer o longínquo senhor.
Leto ficou nove dias e noites por inesperadas
Dores de parto transida, mas todas as deusas vieram
Quantas mais nobres existem: Dione em conjunto com Reia,
Têmis icneia e também Anfitrite de muitos gemidos,
E outras eternas, exceto por Hera de cândidos braços,
Pois se sentou nos recintos de Zeus agrupante de nuvens.
Só não soubera Ilitia, que assiste os trabalhos de parto,
Pois se sentou sob as nuvens douradas do Olimpo elevado
Como tramado por Hera de cândidos braços, detendo-a
Por ter inveja do filho impecável e bem poderoso
Perto de ser concebido por Leto de belos cabelos.
Íris, contudo, enviaram da ilha bem edificada
Para buscar Ilitia jurando-lhe enorme amuleto
Todo trançado com ouro à grandeza de nove antebraços,
Mas a mandaram chamar longe de Hera de cândidos braços,
Que com palavras assim não fizesse com que ela voltasse.
Foi-se a correr e já rapidamente cumpriu o entremeio.
Quando chegou ao assento dos deuses, o Olimpo altaneiro,
Subitamente, da porta e a sair do interior do aposento,
Ela chamou Ilitia e lhe disse as palavras aladas,
Todas, conforme ordenaram aquelas que moram no Olimpo,
E convenceu-lhe seu ânimo dentro do peito querido.
Foram-se então com pés tímidos como se fossem de pombas.
Quando Ilitia das dores de parto chegou até Delos,
Leto de pronto sentiu contrações e ansiou dar à luz.
Com os dois braços em torno a uma palma, inclinou-se aos joelhos
Sobre um gramado macio com a terra sorrindo por baixo.
Ele saltou para luz, ao que todas as deusas clamaram.

Eis então, Febo, que as deusas lavaram-te em límpidas águas,
De modo puro e sagrado, e envolveram-te em branca roupagem,
Fina, recém-costurada, e cingiram-te em áureo cordão.
Mas para Apolo da espada dourada a mãe não deu o seio:
Têmis, porém, ambrosia amorável e néctar conjuntos
Com suas mãos imortais lhe serviu. Eu saúdo-te, Leto!
Visto que um filho fortíssimo e arqueiro tu própria geraste.
Mas, no momento em que, Febo, comeste o alimento ambrosino,
Já não podiam conter teu agito os dourados cordões,
Nem te retiam amarras: soltavam-se as pontas de todas.
Às imortais ao redor, em seguida, falou Febo Apolo:
"Sejam queridos a mim tanto a lira como o arco recurvo,
E eu clamarei, aos humanos, o alvitre de Zeus, infalível."

Tendo assim dito ele andava na terra de largos caminhos,
Febo de longos cabelos, que acerta de longe. Então todas
As imortais se espantavam. Com ouro foi Delos inteira
[Acobertada, mirando a progênie de Zeus e de Leto,
Muito feliz porque o deus a escolheu para erguer sua casa
Dentre outras ilhas e a terra, pois no coração a amou mais.]
Fez-se florida qual cume de monte com flores montesas.
Tu, o senhor de arco argênteo, Apolo que acerta de longe,
Ora vagaste nos montes de Cinto, terreno encrespado,
Ora nas ilhas e em meio aos humanos erravas sem rumo.
Há para ti muitos templos e bosques com árvores várias.
Todos são caros a ti: os mirantes, os altos acumes
Das elevadas montanhas e rios que no mar desenbocam.
Febo, porém, é em Delos que teu coração mais se alegra.
Lá, com efeito, reúnem-se os jônios de túnicas longas
Junto dos próprios rebentos e das reverentes esposas.
Eles, por meio da luta, da dança e também da canção,
Lembram de ti e comprazem-te quando compõem o certame.
Deles, diria que são imortais, sem velhice, perenes,
Quem por ali encontrasse dessarte reunidos os jônios,
Pois notaria sua graça e no íntimo se alegraria
Ao contemplar os varões e as mulheres de bela cintura
E suas rápidas naus e também suas múltiplas posses
E este portento ademais, cuja fama jamais morrerá:
As moças délias, serventes daquele que acerta de longe.
Elas, tão logo se tenha primeiro a Apolo hineado,
E para Leto e também para Ártemis hábil flecheira.
Tendo trazido à memória os varões e as mulheres de outrora,
Cantam então o seu hino e comprazem as tribos humanas.
Todas as línguas humanas e todos os seus dialetos
Elas têm dom de imitar. Cada um se diria ser sua
A entoação, de tão belo que o canto é por elas composto.

Vamos! Mostrai-vos propícios, Apolo com Ártemis, juntos!
E ora de vós me despeço! Mas peço, de mim, no futuro,
Que vos lembreis quando quer que um dos homens que habitam a terra
Vindo até aqui perguntar-vos, algum estrangeiro sofrido:
"Filhas, qual foi para vós o mais doce dos homens cantores
A vir aqui e por conta de quem vós vos mais deleitastes?"
Todas então sem nenhuma exceção respondei prontamente:
"Um homem cego, habitante da ilha de Quios, encrespada.
Suas canções para sempre serão os melhores modelos."
E eu levarei vossa glória aonde quer que eu vagar sobre a terra
Para as cidades dos homens mortais, muito bem habitadas.
E eles serão persuadidos, pois é genuíno o que digo.
E de cantar eu jamais cessarei sobre Apolo longínquo,
De arco de prata, gerado por Leto de belos cabelos.



inexiste aprendizado (C. Leonardo B. Antunes)


            inexiste aprendizado

            há tão somente
            a eventual impossibilidade 
            de reencenar os mesmos erros

            e a saudade, filha do impossível, 
            última provável companheira
            dos que permanecem



sábado, 21 de janeiro de 2017

duo (C. Leonardo B. Antunes)


            o sábio asceta crente na bondade
            fundante-organizante-constituinte
            aponta-me o caminho da montanha
            e a lógica de um logos transcendente-
            -imanente porquanto necessário
            à possibilidade de existir

            mas o inculto pagão terribilíssimo
            escava abismos sob os pés do monte
            além do tempo-espaço e desse mundo
            além da eternidade e do infinito
            e avança rindo bêbado na bruma
            amorfa do que exclama ser o caos



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

boulos e a boulé (C. Leonardo B. Antunes)


            como os heróis helênicos tardassem
            a vinda por que há tanto se aguardava
            e no horizonte não se visse algures
            nau nenhuma,

            erguemos engenhosos nosso próprio 
            cavalo de madeira em praça pública
            e enchemo-lo de heróis por Zeus nutridos,
            nobilíssimos,

            e agora dia e noite com seus cetros
            aurilavralados eles nos ensinam
            a dura disciplina necessária
            no servir.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Antologia Palatina, 10.45, Paladas de Alexandria (trad.: C. Leonardo B. Antunes)


            Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo
               Te semeou, cessarás com toda tua arrogância.
            Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza,
               Ao te chamar de imortal, planta provinda do céu.
            Tendo nascido do barro, por que presunção? Desse modo,
               Diz só quem quer se adornar com uma fraude solene.
            Mas, se procuras um dito escorreito: de licencioso
               Coito nasceste e a partir de um corrimento poluto.


Antologia Palatina, 9.441, Paladas de Alexandria (trad.: C. Leonardo B. Antunes)


            Admirei, às três vias, o brônzeo rebento de Zeus,
               Antes em toda oração, ora tombado por terra.
            Bravo, então disse: “Guardião contra males, de tríplices luas,
               Nunca perdeste a ninguém, e hoje tu estás derrubado.”
            Quando foi noite, sorrindo, o divino falou-me ao meu lado:
               “Mesmo divino, aprendi a ser vassalo dos tempos.”  

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

depuração (C. Leonardo B. Antunes)


            às vezes é preciso um tempo mudo
            a fim de depurar o espesso caldo
            dos sentidos, fechar antigos saldos
            antes de abrir-se novamente a tudo.

            às vezes e de novo chega um tempo
            daquilo que não cabe na moldura,
            que se faz e refaz e transfigura
            e encontra em tempo um novo contratempo.

            e às vezes se retorna a uma unidade,
            brevíssimo momento em que o destino
            alinha os astros favoravelmente

            (ou seja lá qual for o desatino
            que explique esse fenômeno indecente,
            tão improvável: a felicidade).