domingo, 25 de setembro de 2016

O CUBO

I

cada dia de trabalho,
cada hora cuidadosamente dispensada
ao diuturno esforço para cumprir os contratos de trabalho,

aumenta um pouco mais o Cubo

II

saiba-se que o Cubo
é tudo quanto existe
e tudo quanto deve existir

em hipótese alguma
será tolerado um ato violento
contra o Cubo

III

há somente dois tipos de ser humano

primeiro, os cidadãos,
que trabalham na construção e na manutenção do Cubo,
cada um responsável por uma mínima parte de seu imperioso funcionamento
(ainda que nenhum, em hipótese alguma, deva conhecer a função de seu trabalho),
cumprindo contratos para a confecção de parafusos, porcas, engrenagens,
planejando a miríade de cômodos cúbicos que compõem o Cubo,
ora vazios e assépticos,
ora perfilados pelas mais mortais armadilhas que a tecnologia permita,
a fim de eliminar 

o segundo tipo de ser humano, os parasitas,
vândalos anarquistas que questionam o funcionamento do Cubo,
inúteis incapazes de produzir novas peças para o Cubo
a fim assegurar sua imperiosa expansão

IV

o objetivo de todo contrato de trabalho no Cubo
é cumprir o contrato de trabalho recebido para trabalhar no Cubo

com isso se recebem os meios para viver dentro do Cubo
nos mais assépticos de seus cúbicos cômodos

V

quanto mais distante for o produto de um trabalho
de sua real aplicação dentro do Cubo
maior será seu pagamento

todos competem pelos mais complexos trabalhos,
de inescrutável aplicação prática dentro do Cubo,
mas apenas os melhores podem tê-los

apenas os piores,
por trabalharem diretamente próximo dos cômodos armadilhados,
encontram-se na iminência de compreender a função de seu trabalho
e, com isso, o funcionamento do Cubo

VI

por ocasionar profunda depressão, tendências suicidas
e eventual degeneração na ética de trabalho para o progresso do Cubo,
a compreensão do funcionamento do Cubo
é desaconselhada pelo ministério da saúde cúbica

VII

para ir ao trabalho,
todo dia é necessário vaguear pelo labirinto de cômodos do Cubo,
que a cada noite mudam de posição
para melhor surpreender os que se recusam a trabalhar no Cubo

é dever de cada cidadão
evitar as armadilhas do Cubo

é dever de cada cidadão
acreditar que os melhores são aqueles que sobrevivem
ao aleatório passeio pelos corredores armadilhados do Cubo

VIII

há êxtase em ser um dos melhores

IX

a morte dos piores purifica o Cubo de potenciais parasitas

terça-feira, 20 de setembro de 2016

John Keats, Ode a um Rouxinol (trad.: C. Leonardo B. Antunes)


            Meu coração padece e um torpor sonolento
               Me assalta a mente, como se eu me envenenasse,
            Ou se sorvesse um opiáceo há um momento
               Recém-passado, e para o Lete me afundasse.
            Não é por invejar-te tua feliz fortuna,
               Mas, sendo tão feliz em tal felicidade,
                  Que tu, diáfana deidade das florestas,
                     Em mélica tribuna
               De verdes plantas e sombrosa variedade,
                  Cantas sobre o verão com calma manifesta.

            Quem dera um gole de vindima! que tivesse
               Esfriado por eras na terra escavada,
            Com o sabor de Flora e campesinas messes,
               Dança e canto em Provença, e farra ensolarada!
            Quem dera uma caneca com o ardor sulino,
               Cheia do verdadeiro, viçoso Hipocrene,
                  Com belas bolhas me piscando do bocal,
                     E o lábio purpurino,
               Que eu beba e deixe o mundo sem quem me condene
                  E contigo me esvaia no breu florestal.

            Esvair-me à distância, sumir e esquecer
               Aquilo que nas árvores jamais soubeste,
            O esgotamento, a febre e a angústia de viver
               Aqui, onde sofremos sofrimento agreste;
            Onde a paralisia move tristes cãs,
               Onde os jovens desbotam, sem viço e perecem;
                  Onde apenas pensar já traz melancolia
                     E agonias malsãs;
               Onde os olhos lustrosos da Beleza descem
                  Longe do olhar que um novo Amor ofertaria.

            Vamos! Vamos! Que irei voando acompanhar-te,
               Não levado por Baco em sua carruagem,
            Mas nas inescrutáveis asas de minha Arte.
               Inda que os pensamentos me desencorajem,
            Já estou contigo! A noite, amena, se traduz,
               E feliz a Rainha-Lua já se entrona,
                  Cercada por um véu de fadas siderais;
                     Mas aqui não há luz,
               Exceto o que do céu as brisas impulsionam
                  Por verdejante sombra e trilhas espirais.

            Eu não enxergo as flores junto dos meus pés,
               Nem qual incenso leve sobre os galhos voa,
            Mas, indo de veladas trevas através,
               Adivinho a doçura com que o mês coroa
            A grama, o arbusto e as árvores de frutas feras;
               O alvo espinheiro e a madressilva pastoral;
                  Efêmeras violetas, por folhas cobertas,
                     E a que da primavera
               Nasceu primeiro, a rosa mosqueta, vernal,
                  O murmúrio das moscas nas tardes abertas.

            Soturno escuto; e por um tempo prolongado
               Fui quase apaixonado pela calma Morte;
            No meu verso a chamei por nomes delicados,
               Para privar-me o peito do ar que é seu suporte.
            Agora, mais que nunca, alegre eu morreria,
               Cessaria na noite sem nenhuma dor
                  Enquanto tu derramas tua alma afora
                     Com tamanha alegria!
               Ainda assim tu cantarias, e em torpor
                  Teu réquiem embalara minhas últimas horas.

            A morte não te espanta, Pássaro imortal!
               Nenhuma geração faminta te espezinha;
            A voz que agora eu ouço, num tempo ancestral,
               Ouviram um imperador e uma adivinha:
            Talvez a mesma música que achou açude
               No coração de Rute quando, em nostalgia,
                  Quedou em lágrimas num milharal sem dó.
                     A mesma que amiúde
               Fez abrir escotilhas com sua magia
                  Em perigosos mares encantados, só.

            Só! A própria palavra soa como um sino
               Para de junto a ti trazer-me à solidão!
            Adeus! O pensamento não tem bom destino;
               Não duram os enganos da imaginação.
            Adeus! Adeus! Teu canto de lamúria some
               Além dos campos próximos, num calmo rio,
                  Sobre a face dos montes; e agora se enterra
                     Em um vale sem nome:
               Tivera uma visão ou um sonho doentio?
                  Foi-se a canção: começa a vigília ou se encerra?

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Fato, Dúvida, Certeza (C. Leonardo B. Antunes)


            1-1-1

            Às oito da manhã, pontualmente,
            Enquanto eu preparava o desjejum,
            Passada pela porta, de repente,
            Chegou-me uma mensagem incomum.
            
            Dizia: “Meu prezado, gostaria
            De instar-te a meu ilustre funeral,
            No qual, se me cederes a honraria,
            Serás o encomiasta exequial.”

            Por isso, não tomei o meu café.
            Por isso, meu jornal larguei aberto.
            Vesti-me consternado e fui-me a pé
            Ao cemitério, estranhamente perto.

            A poucos, disse poucas, desconjuntas
            Palavras, sem respostas nem perguntas.

sábado, 10 de setembro de 2016

logo será noite (C. Leonardo B. Antunes)


            quanto viste,
            o quanto amaste,
            de quanto fizeste,

            ninguém jamais verá, 
            ninguém o saberá, 
            ninguém se lembrará.

sábado, 3 de setembro de 2016

APONTAMENTOS PARA TEMPOS DE CRISE NA SEGURANÇA PÚBLICA EM PORTO ALEGRE (C. Leonardo B. Antunes)


            aos que acaso estiverem em perigo,
            sem quem ajude em meio à avenida vazia,
            acossados de madrugada por algum tipo suspeito,

            aviso que, melhor do que chamar o Batman,
            melhor do que discar um-nove-zero,
            é gritar FORA TEMER.

            impressionante grito de socorro
            cedeu-nos o cioso governante.

            há garantia de imediata intervenção
            por batalhão de choque e até por helicóptero.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

há trilhos intrilháveis na avenida (C. Leonardo B. Antunes)


            há trilhos intrilháveis na avenida,
            memória de algum tempo que não vi,
            por onde um dia um trem talvez passasse,
            levando cedo as gentes ao trabalho.

            ou quem sabe não fosse um trem, mas sim
            um bonde como aquele em que meu vô
            pulava assim que o sol no céu nascia
            e donde despencava ao fim da tarde.

            agora os trilhos já não têm mais trem
            nem bonde nem sentido além de estar
            no meio do caminho, como alguma
            espécie de lombada improvisada.

            alguém decerto os romperia à força
            e longe da cidade os levaria
            se não fossem tão grandes, tão pesados,
            tão tristemente belos esses trilhos.